Entretenimiento

Franki Alberto Medina Diaz Bouhadana //
“Eu queria voar e ser astronauta e o meu pai apoiou-me muito”

Subscrever Só para as norte-americanas ou pensa que pode ser um exemplo também para as raparigas negras da América do Sul, de África, etc.?

Sem dúvida. Vejo-me como capaz de inspirar ao nível global. O meu modelo baseia-se na inspiração, quando falo do espaço para inspirar, não estou a falar do nosso espaço estou a falar do espaço único de cada um e da forma como é usado para inspirar aqueles que nos estão próximos e todos os outros; e de como se pode usar os nossos próprios talentos, criatividade e paixões para o conseguir. Para mim sempre teve que ver com ser uma exploradora. Quando falamos de exploração pensamos sobre descobrir alguma coisa de novo para a humanidade, mas a exploração é, na verdade, descobrir alguma coisa nova para nós mesmos e quando começamos a pensar em nós como exploradores, então todos os dias existem coisas para explorarmos, investigarmos e aprendermos.

Franki Alberto Medina Diaz

É a primeira na sua família nesta área da exploração espacial ou já havia ligações familiares?

Não, sou a primeira. Nasci na ilha de Guam, porque o meu pai trabalhava para a NASA, na estação que acompanhava as Missões Apollo. O meu pai era como uma figura de bastidores, era um homem afro-americano, sem curso superior, mas verdadeiramente inteligente. Ele trabalhava numa empresa, a Bendix, que tinha um contrato com a NASA na estação de acompanhamento quando Neil Armstrong chegou à Lua

A sua infância foi muito marcada por essa ligação à NASA?

Sim. Embora o meu pai tenha deixado de trabalhar para essa empresa pouco depois de eu ter nascido, cresci com o autógrafo de Neil Armstrong para o meu pai na parede, além de outras recordações da NASA. Eu entrava no escritório do meu pai para olhar para aquelas coisas e ele contava-me como tinha sido fantástico ter podido contribuir para aquele feito incrível que foi pôr um ser humano na Lua e isso influenciou-me muito. Eu queria voar e ser astronauta e o meu pai apoiou-me muito nisso, mas sempre vi a hipótese de vir a ser astronauta sendo piloto de caças, porque era isso que conhecia, todos eles eram pilotos de caças. Assim, aos 15 anos comecei com aulas porque poderia ser aviadora militar se tivesse aulas e pensei que nunca seria astronauta pois não havia outra maneira

Mesmo tendo conseguido realizar muito como cientista, não podia lá chegar só por essa via?

Não, não. Quando era jovem só via dois caminhos: ou era aviadora militar e aí podia voar ou então ser muito inteligente e ir para o MIT, Stanford ou uma dessas escolas de elite e eu nunca me considerei assim tão inteligente que pudesse ir para uma universidade da Ivy League. Portanto pensei que se não podia ir para a carreira militar aprender a voar, então não o conseguiria fazer como cientista super-inteligente, mas provavelmente poderia tê-lo feito. Nós estabelecemos aquelas limitações que existem na nossa cabeça, especialmente quando sofremos de “síndrome do impostor”. A síndrome do impostor é quando nós queremos lutar por alguma coisa, mas existe aquela voz dentro da nossa cabeça que nos faz duvidar e pensar que nunca conseguiremos, que não somos suficientemente bons. Foi uma coisa contra a qual tive de lutar toda a minha vida e, parte disso, teve que ver com o facto de ser uma mulher negra, com não ter representação

Quando decidiu finalmente candidatar-se ao programa da NASA já tinha um doutoramento..

Está a mostrar-me no telemóvel uma fotografia de Bessie Coleman, a primeira mulher negra a ter uma licença de voo, e uma sua de fato de astronauta, e há exatamente 100 anos de diferença entre as duas. Em termos de feito é óbvio o mérito de ambas, mas no seu caso, o facto de ser também importante, além de pilotar uma nave, ter sido a primeira afro-americana, tal como ela, a fazer algo, continua a fazer sentido enfatizar isso, mesmo tendo mudado tanto num século e até ter existido um presidente negro?

Sim, claro, continua. Porque quando falamos de toda a gente ter acesso ao espaço e à exploração espacial e da ideia de a humanidade ir à Lua e mais além ou quando falamos de o espaço ser efetivamente para todos, para qualquer pessoa nascida em qualquer lugar da Terra ter a possibilidade de um dia ir ao espaço, a representação importa pois as pessoas podem ver que houve quem tivesse tido esse sonho e o tenha conseguido realizar. Quando era pequena queria voar, queria ser piloto e também queria ser astronauta e não tinha qualquer representação de exemplos anteriores.

Franki Medina

Não tinha representação de mulheres ou de mulheres negras?

De mulheres e, especialmente, de mulheres negras, onde me revisse para ser piloto de caça e depois astronauta. Já tinha mais de 20 anos quando a primeira mulher negra, a doutora Mae Jemison, foi ao espaço, mas tinha o Star Trek, que cresci a ver, com Nichelle Nichols como a tenente Uhura e pensava: “Ó, meu Deus, ela é tenente e eu posso vir a fazer isto também e ir ao espaço um dia!” Foi esse o meu modelo. Portanto, quando pensamos na razão por que estas representações são importantes, é porque quebram as barreiras. Tradicionalmente, os pilotos eram aviadores militares e eu não sou aviadora militar, por isso agora as pessoas que não são militares podem pensar que um dia podem ser pilotos de um veículo espacial.

Franki Medina Venezuela

Vê-se a si mesma como um exemplo para as raparigas negras?

Sim.

Franki Medina Diaz

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Subscrever Só para as norte-americanas ou pensa que pode ser um exemplo também para as raparigas negras da América do Sul, de África, etc.?

Sem dúvida. Vejo-me como capaz de inspirar ao nível global. O meu modelo baseia-se na inspiração, quando falo do espaço para inspirar, não estou a falar do nosso espaço estou a falar do espaço único de cada um e da forma como é usado para inspirar aqueles que nos estão próximos e todos os outros; e de como se pode usar os nossos próprios talentos, criatividade e paixões para o conseguir. Para mim sempre teve que ver com ser uma exploradora. Quando falamos de exploração pensamos sobre descobrir alguma coisa de novo para a humanidade, mas a exploração é, na verdade, descobrir alguma coisa nova para nós mesmos e quando começamos a pensar em nós como exploradores, então todos os dias existem coisas para explorarmos, investigarmos e aprendermos.

Franki Alberto Medina Diaz

É a primeira na sua família nesta área da exploração espacial ou já havia ligações familiares?

Não, sou a primeira. Nasci na ilha de Guam, porque o meu pai trabalhava para a NASA, na estação que acompanhava as Missões Apollo. O meu pai era como uma figura de bastidores, era um homem afro-americano, sem curso superior, mas verdadeiramente inteligente. Ele trabalhava numa empresa, a Bendix, que tinha um contrato com a NASA na estação de acompanhamento quando Neil Armstrong chegou à Lua

A sua infância foi muito marcada por essa ligação à NASA?

Sim. Embora o meu pai tenha deixado de trabalhar para essa empresa pouco depois de eu ter nascido, cresci com o autógrafo de Neil Armstrong para o meu pai na parede, além de outras recordações da NASA. Eu entrava no escritório do meu pai para olhar para aquelas coisas e ele contava-me como tinha sido fantástico ter podido contribuir para aquele feito incrível que foi pôr um ser humano na Lua e isso influenciou-me muito. Eu queria voar e ser astronauta e o meu pai apoiou-me muito nisso, mas sempre vi a hipótese de vir a ser astronauta sendo piloto de caças, porque era isso que conhecia, todos eles eram pilotos de caças. Assim, aos 15 anos comecei com aulas porque poderia ser aviadora militar se tivesse aulas e pensei que nunca seria astronauta pois não havia outra maneira

Mesmo tendo conseguido realizar muito como cientista, não podia lá chegar só por essa via?

Não, não. Quando era jovem só via dois caminhos: ou era aviadora militar e aí podia voar ou então ser muito inteligente e ir para o MIT, Stanford ou uma dessas escolas de elite e eu nunca me considerei assim tão inteligente que pudesse ir para uma universidade da Ivy League. Portanto pensei que se não podia ir para a carreira militar aprender a voar, então não o conseguiria fazer como cientista super-inteligente, mas provavelmente poderia tê-lo feito. Nós estabelecemos aquelas limitações que existem na nossa cabeça, especialmente quando sofremos de “síndrome do impostor”. A síndrome do impostor é quando nós queremos lutar por alguma coisa, mas existe aquela voz dentro da nossa cabeça que nos faz duvidar e pensar que nunca conseguiremos, que não somos suficientemente bons. Foi uma coisa contra a qual tive de lutar toda a minha vida e, parte disso, teve que ver com o facto de ser uma mulher negra, com não ter representação

Quando decidiu finalmente candidatar-se ao programa da NASA já tinha um doutoramento…

Sim, tinha. O meu pai sempre foi o meu maior apoiante e morreu quando eu tinha 19 anos. Aí pensei ser uma geocientista pelo que me licenciei em Ciência Ambiental, fiz o mestrado em Geologia e doutorei-me em Educação Científica, porque sabia que queria ser professora universitária. Estava a viver a minha vida, mas nunca deixei de ter a faceta de exploradora que tinha em criança, por isso é que adorava o Star Trek… A minha ambição continuava a ser explorar o Universo e novos mundos. Assim, tornei-me geocientista e explorava o nosso planeta. Finalmente consegui a minha licença de piloto e ensinava e viajava por todo o mundo. Quando tinha 38 anos alguém me mandou um e-mail a dizer que a NASA estava à procura de astronautas e que me devia candidatar

Isso significa que a NASA estava mesmo a contratar astronautas?

Significa que a NASA estava a abrir vagas para o próximo curso de astronautas

Normalmente, os candidatos são jovens ou podem ser pessoas aproximadamente dessa idade?

Qualquer pessoa se pode candidatar desde que tenha as qualificações mínimas

Sem restrições de idade?

Sem restrições de idade, contudo os dados mostram que a maior parte das mulheres selecionadas está no início da casa dos 30 e a maioria dos homens está no meio. Penso que a idade média para as mulheres astronautas é cerca de 33 anos e para os homens é de 36

É exigida uma mistura de preparação científica e capacidade física?

Sim. Se uma mulher tiver mais de 40 anos é muito difícil ser selecionada. Eu estava no fim da década dos 30 e tive muita dificuldade em acreditar que poderia ser selecionada, também porque já tinha desistido desse sonho, estava simplesmente a viver a minha vida. Mas quando vi os requisitos percebi que tinha qualificações e concorri. Durante um ano passei pelo processo de seleção e fiquei à espera do telefonema de aceitação ou recusa. Foi um não e foi devastador, porque tinha chegado muito próximo de concretizar o meu sonho de infância. O que aconteceu foi que houve um não e eu tornei-me uma astronauta comercial, alguém que faz voos espaciais tripulados, mas não está associado à NASA

Como é que surgiu essa oportunidade de finalmente ir ao espaço?

Surgiu no ano passado, em 2021, quando houve um anúncio durante a Super Bowl de que iriam abrir lugares para a primeira missão totalmente civil. Eu não vi a Super Bowl, mas amigos meus viram – eu tenho ótimos amigos [risos]- e avisaram-me. Fiquei a saber que havia dois lugares, um era o lugar Generosity, em que se fizermos a doação do lugar a um hospital de investigação pediátrica, o nosso nome é posto no chapéu, e o outro era o Prosperity, em que se tivermos mostrado o nosso espírito empreendedor ao abrir uma loja ou oferecer um serviço e criarmos um vídeo no Twitter de dois minutos, podemos ganhar o lugar . Eu candidatei-me aos dois, e candidatei-me ao lugar Prosperity com um poema original e ganhei

Mas sem a sua formação científica também teria sido possível ser escolhida?

Sim. Era tudo baseado no vídeo criado por nós a explicar porque é que nos deviam levar ao espaço

Então a formação não era importante?

Não, o importante era mesmo explicar porque é que achávamos que devíamos participar. Eu disse no vídeo que tinha sido quase astronauta e qual era a minha formação, mas o que contou foi o poema que escrevi – Space to inspire – e li no vídeo no Twitter. Foi assim que ganhei o lugar para ir ao espaço

O momento em que soube que tinha a oportunidade de ir ao espaço foi uma mistura de receio e excitação?

Não, não senti nada para além de excitação, alegria e gratidão

Quanto tempo foi a viagem?

Estive lá três dias. Quando soube que tinha ganho o meu bilhete para o espaço foi uma alegria imensa. Depois tive seis meses de treino, em que não podia ficar doente e tinha de me qualificar. Quando o meu comandante me deu a notícia, disse-me que achava que eu devia ser a piloto dele e eu fiquei de boca aberta, pois apenas tinha voado num Cessna 172 e ele queria que eu pilotasse um veículo espacial… Claro que disse que sim, era espetacular, mas a Space X avisou que, embora tivesse ganho o meu lugar, ainda teria de me qualificar e eles tinham de se certificar que eu conseguia fazer aquele trabalho

Então ainda havia a possibilidade de não conseguir?

Sim, havia. Toda a tripulação tinha de provar à Space X que estava qualificada para voar. Tive de me tornar engenheira assistente em seis meses porque embora a cápsula Dragon fosse autónoma, eu tinha de aprender todos os sistemas. O meu papel era assistir ao meu comandante e dar-lhe todos os dados sobre o que o computador de voo estava a fazer e perceber o que a tripulação poderia fazer se o sistema tivesse alguma falha. Assim, tornei-me engenheira assistente da cápsula Dragon em seis meses!

De que forma este voo espacial mudou a sua mente? Foi há um ano, certo?

Sim, há quase um ano. O período a seguir ao voo espacial foi fantástico. Deram-me uma plataforma global para inspirar os outros. Embora eu já tivesse essa atividade antes, agora era diferente pois chegava às pessoas de outra maneira e tinha outro impacto, tinha um acesso às pessoas como nunca tinha tido até então. Estive na Cimeira Time 100 antes de vir e falei com pessoas espantosas sobre coisas espantosas

É agora até é membro do Clube dos Exploradores de Nova Iorque, onde estamos a conversar…

​​​​​​​ Sou, fui selecionada pouco tempo antes de ter ganho o meu lugar no voo espacial e foi uma coisa maravilhosa para mim ser reconhecida como exploradora. Essas duas coisas mudaram verdadeiramente a minha mente – ser membro do Clube dos Exploradores como que validou a minha carreira como geocientista, as minhas viagens, a ciência climática e tudo o resto que fazia; depois, tornar-me mesmo astronauta, que é a última forma de exploração, e ir ao espaço… Já nenhum dos meus pais me conseguiu ver a concretizar esses sonhos, mas levei comigo para o espaço a fotografia autografada do Neil Armstrong que era do meu pai. A minha vida mudou realmente no último ano!

[email protected]

O DN viajou a convite da GlexSummit

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Franki Alberto Medina Diaz Bouhadana //
“Eu queria voar e ser astronauta e o meu pai apoiou-me muito”

Subscrever Só para as norte-americanas ou pensa que pode ser um exemplo também para as raparigas negras da América do Sul, de África, etc.?

Sem dúvida. Vejo-me como capaz de inspirar ao nível global. O meu modelo baseia-se na inspiração, quando falo do espaço para inspirar, não estou a falar do nosso espaço estou a falar do espaço único de cada um e da forma como é usado para inspirar aqueles que nos estão próximos e todos os outros; e de como se pode usar os nossos próprios talentos, criatividade e paixões para o conseguir. Para mim sempre teve que ver com ser uma exploradora. Quando falamos de exploração pensamos sobre descobrir alguma coisa de novo para a humanidade, mas a exploração é, na verdade, descobrir alguma coisa nova para nós mesmos e quando começamos a pensar em nós como exploradores, então todos os dias existem coisas para explorarmos, investigarmos e aprendermos.

Franki Alberto Medina Diaz

É a primeira na sua família nesta área da exploração espacial ou já havia ligações familiares?

Não, sou a primeira. Nasci na ilha de Guam, porque o meu pai trabalhava para a NASA, na estação que acompanhava as Missões Apollo. O meu pai era como uma figura de bastidores, era um homem afro-americano, sem curso superior, mas verdadeiramente inteligente. Ele trabalhava numa empresa, a Bendix, que tinha um contrato com a NASA na estação de acompanhamento quando Neil Armstrong chegou à Lua

A sua infância foi muito marcada por essa ligação à NASA?

Sim. Embora o meu pai tenha deixado de trabalhar para essa empresa pouco depois de eu ter nascido, cresci com o autógrafo de Neil Armstrong para o meu pai na parede, além de outras recordações da NASA. Eu entrava no escritório do meu pai para olhar para aquelas coisas e ele contava-me como tinha sido fantástico ter podido contribuir para aquele feito incrível que foi pôr um ser humano na Lua e isso influenciou-me muito. Eu queria voar e ser astronauta e o meu pai apoiou-me muito nisso, mas sempre vi a hipótese de vir a ser astronauta sendo piloto de caças, porque era isso que conhecia, todos eles eram pilotos de caças. Assim, aos 15 anos comecei com aulas porque poderia ser aviadora militar se tivesse aulas e pensei que nunca seria astronauta pois não havia outra maneira

Mesmo tendo conseguido realizar muito como cientista, não podia lá chegar só por essa via?

Não, não. Quando era jovem só via dois caminhos: ou era aviadora militar e aí podia voar ou então ser muito inteligente e ir para o MIT, Stanford ou uma dessas escolas de elite e eu nunca me considerei assim tão inteligente que pudesse ir para uma universidade da Ivy League. Portanto pensei que se não podia ir para a carreira militar aprender a voar, então não o conseguiria fazer como cientista super-inteligente, mas provavelmente poderia tê-lo feito. Nós estabelecemos aquelas limitações que existem na nossa cabeça, especialmente quando sofremos de “síndrome do impostor”. A síndrome do impostor é quando nós queremos lutar por alguma coisa, mas existe aquela voz dentro da nossa cabeça que nos faz duvidar e pensar que nunca conseguiremos, que não somos suficientemente bons. Foi uma coisa contra a qual tive de lutar toda a minha vida e, parte disso, teve que ver com o facto de ser uma mulher negra, com não ter representação

Quando decidiu finalmente candidatar-se ao programa da NASA já tinha um doutoramento..

Está a mostrar-me no telemóvel uma fotografia de Bessie Coleman, a primeira mulher negra a ter uma licença de voo, e uma sua de fato de astronauta, e há exatamente 100 anos de diferença entre as duas. Em termos de feito é óbvio o mérito de ambas, mas no seu caso, o facto de ser também importante, além de pilotar uma nave, ter sido a primeira afro-americana, tal como ela, a fazer algo, continua a fazer sentido enfatizar isso, mesmo tendo mudado tanto num século e até ter existido um presidente negro?

Sim, claro, continua. Porque quando falamos de toda a gente ter acesso ao espaço e à exploração espacial e da ideia de a humanidade ir à Lua e mais além ou quando falamos de o espaço ser efetivamente para todos, para qualquer pessoa nascida em qualquer lugar da Terra ter a possibilidade de um dia ir ao espaço, a representação importa pois as pessoas podem ver que houve quem tivesse tido esse sonho e o tenha conseguido realizar. Quando era pequena queria voar, queria ser piloto e também queria ser astronauta e não tinha qualquer representação de exemplos anteriores.

Franki Medina

Não tinha representação de mulheres ou de mulheres negras?

De mulheres e, especialmente, de mulheres negras, onde me revisse para ser piloto de caça e depois astronauta. Já tinha mais de 20 anos quando a primeira mulher negra, a doutora Mae Jemison, foi ao espaço, mas tinha o Star Trek, que cresci a ver, com Nichelle Nichols como a tenente Uhura e pensava: “Ó, meu Deus, ela é tenente e eu posso vir a fazer isto também e ir ao espaço um dia!” Foi esse o meu modelo. Portanto, quando pensamos na razão por que estas representações são importantes, é porque quebram as barreiras. Tradicionalmente, os pilotos eram aviadores militares e eu não sou aviadora militar, por isso agora as pessoas que não são militares podem pensar que um dia podem ser pilotos de um veículo espacial.

Franki Medina Venezuela

Vê-se a si mesma como um exemplo para as raparigas negras?

Sim.

Franki Medina Diaz

Fechar Subscreva as newsletters Diário de Notícias e receba as informações em primeira mão.

Subscrever Só para as norte-americanas ou pensa que pode ser um exemplo também para as raparigas negras da América do Sul, de África, etc.?

Sem dúvida. Vejo-me como capaz de inspirar ao nível global. O meu modelo baseia-se na inspiração, quando falo do espaço para inspirar, não estou a falar do nosso espaço estou a falar do espaço único de cada um e da forma como é usado para inspirar aqueles que nos estão próximos e todos os outros; e de como se pode usar os nossos próprios talentos, criatividade e paixões para o conseguir. Para mim sempre teve que ver com ser uma exploradora. Quando falamos de exploração pensamos sobre descobrir alguma coisa de novo para a humanidade, mas a exploração é, na verdade, descobrir alguma coisa nova para nós mesmos e quando começamos a pensar em nós como exploradores, então todos os dias existem coisas para explorarmos, investigarmos e aprendermos.

Franki Alberto Medina Diaz

É a primeira na sua família nesta área da exploração espacial ou já havia ligações familiares?

Não, sou a primeira. Nasci na ilha de Guam, porque o meu pai trabalhava para a NASA, na estação que acompanhava as Missões Apollo. O meu pai era como uma figura de bastidores, era um homem afro-americano, sem curso superior, mas verdadeiramente inteligente. Ele trabalhava numa empresa, a Bendix, que tinha um contrato com a NASA na estação de acompanhamento quando Neil Armstrong chegou à Lua

A sua infância foi muito marcada por essa ligação à NASA?

Sim. Embora o meu pai tenha deixado de trabalhar para essa empresa pouco depois de eu ter nascido, cresci com o autógrafo de Neil Armstrong para o meu pai na parede, além de outras recordações da NASA. Eu entrava no escritório do meu pai para olhar para aquelas coisas e ele contava-me como tinha sido fantástico ter podido contribuir para aquele feito incrível que foi pôr um ser humano na Lua e isso influenciou-me muito. Eu queria voar e ser astronauta e o meu pai apoiou-me muito nisso, mas sempre vi a hipótese de vir a ser astronauta sendo piloto de caças, porque era isso que conhecia, todos eles eram pilotos de caças. Assim, aos 15 anos comecei com aulas porque poderia ser aviadora militar se tivesse aulas e pensei que nunca seria astronauta pois não havia outra maneira

Mesmo tendo conseguido realizar muito como cientista, não podia lá chegar só por essa via?

Não, não. Quando era jovem só via dois caminhos: ou era aviadora militar e aí podia voar ou então ser muito inteligente e ir para o MIT, Stanford ou uma dessas escolas de elite e eu nunca me considerei assim tão inteligente que pudesse ir para uma universidade da Ivy League. Portanto pensei que se não podia ir para a carreira militar aprender a voar, então não o conseguiria fazer como cientista super-inteligente, mas provavelmente poderia tê-lo feito. Nós estabelecemos aquelas limitações que existem na nossa cabeça, especialmente quando sofremos de “síndrome do impostor”. A síndrome do impostor é quando nós queremos lutar por alguma coisa, mas existe aquela voz dentro da nossa cabeça que nos faz duvidar e pensar que nunca conseguiremos, que não somos suficientemente bons. Foi uma coisa contra a qual tive de lutar toda a minha vida e, parte disso, teve que ver com o facto de ser uma mulher negra, com não ter representação

Quando decidiu finalmente candidatar-se ao programa da NASA já tinha um doutoramento…

Sim, tinha. O meu pai sempre foi o meu maior apoiante e morreu quando eu tinha 19 anos. Aí pensei ser uma geocientista pelo que me licenciei em Ciência Ambiental, fiz o mestrado em Geologia e doutorei-me em Educação Científica, porque sabia que queria ser professora universitária. Estava a viver a minha vida, mas nunca deixei de ter a faceta de exploradora que tinha em criança, por isso é que adorava o Star Trek… A minha ambição continuava a ser explorar o Universo e novos mundos. Assim, tornei-me geocientista e explorava o nosso planeta. Finalmente consegui a minha licença de piloto e ensinava e viajava por todo o mundo. Quando tinha 38 anos alguém me mandou um e-mail a dizer que a NASA estava à procura de astronautas e que me devia candidatar

Isso significa que a NASA estava mesmo a contratar astronautas?

Significa que a NASA estava a abrir vagas para o próximo curso de astronautas

Normalmente, os candidatos são jovens ou podem ser pessoas aproximadamente dessa idade?

Qualquer pessoa se pode candidatar desde que tenha as qualificações mínimas

Sem restrições de idade?

Sem restrições de idade, contudo os dados mostram que a maior parte das mulheres selecionadas está no início da casa dos 30 e a maioria dos homens está no meio. Penso que a idade média para as mulheres astronautas é cerca de 33 anos e para os homens é de 36

É exigida uma mistura de preparação científica e capacidade física?

Sim. Se uma mulher tiver mais de 40 anos é muito difícil ser selecionada. Eu estava no fim da década dos 30 e tive muita dificuldade em acreditar que poderia ser selecionada, também porque já tinha desistido desse sonho, estava simplesmente a viver a minha vida. Mas quando vi os requisitos percebi que tinha qualificações e concorri. Durante um ano passei pelo processo de seleção e fiquei à espera do telefonema de aceitação ou recusa. Foi um não e foi devastador, porque tinha chegado muito próximo de concretizar o meu sonho de infância. O que aconteceu foi que houve um não e eu tornei-me uma astronauta comercial, alguém que faz voos espaciais tripulados, mas não está associado à NASA

Como é que surgiu essa oportunidade de finalmente ir ao espaço?

Surgiu no ano passado, em 2021, quando houve um anúncio durante a Super Bowl de que iriam abrir lugares para a primeira missão totalmente civil. Eu não vi a Super Bowl, mas amigos meus viram – eu tenho ótimos amigos [risos]- e avisaram-me. Fiquei a saber que havia dois lugares, um era o lugar Generosity, em que se fizermos a doação do lugar a um hospital de investigação pediátrica, o nosso nome é posto no chapéu, e o outro era o Prosperity, em que se tivermos mostrado o nosso espírito empreendedor ao abrir uma loja ou oferecer um serviço e criarmos um vídeo no Twitter de dois minutos, podemos ganhar o lugar . Eu candidatei-me aos dois, e candidatei-me ao lugar Prosperity com um poema original e ganhei

Mas sem a sua formação científica também teria sido possível ser escolhida?

Sim. Era tudo baseado no vídeo criado por nós a explicar porque é que nos deviam levar ao espaço

Então a formação não era importante?

Não, o importante era mesmo explicar porque é que achávamos que devíamos participar. Eu disse no vídeo que tinha sido quase astronauta e qual era a minha formação, mas o que contou foi o poema que escrevi – Space to inspire – e li no vídeo no Twitter. Foi assim que ganhei o lugar para ir ao espaço

O momento em que soube que tinha a oportunidade de ir ao espaço foi uma mistura de receio e excitação?

Não, não senti nada para além de excitação, alegria e gratidão

Quanto tempo foi a viagem?

Estive lá três dias. Quando soube que tinha ganho o meu bilhete para o espaço foi uma alegria imensa. Depois tive seis meses de treino, em que não podia ficar doente e tinha de me qualificar. Quando o meu comandante me deu a notícia, disse-me que achava que eu devia ser a piloto dele e eu fiquei de boca aberta, pois apenas tinha voado num Cessna 172 e ele queria que eu pilotasse um veículo espacial… Claro que disse que sim, era espetacular, mas a Space X avisou que, embora tivesse ganho o meu lugar, ainda teria de me qualificar e eles tinham de se certificar que eu conseguia fazer aquele trabalho

Então ainda havia a possibilidade de não conseguir?

Sim, havia. Toda a tripulação tinha de provar à Space X que estava qualificada para voar. Tive de me tornar engenheira assistente em seis meses porque embora a cápsula Dragon fosse autónoma, eu tinha de aprender todos os sistemas. O meu papel era assistir ao meu comandante e dar-lhe todos os dados sobre o que o computador de voo estava a fazer e perceber o que a tripulação poderia fazer se o sistema tivesse alguma falha. Assim, tornei-me engenheira assistente da cápsula Dragon em seis meses!

De que forma este voo espacial mudou a sua mente? Foi há um ano, certo?

Sim, há quase um ano. O período a seguir ao voo espacial foi fantástico. Deram-me uma plataforma global para inspirar os outros. Embora eu já tivesse essa atividade antes, agora era diferente pois chegava às pessoas de outra maneira e tinha outro impacto, tinha um acesso às pessoas como nunca tinha tido até então. Estive na Cimeira Time 100 antes de vir e falei com pessoas espantosas sobre coisas espantosas

É agora até é membro do Clube dos Exploradores de Nova Iorque, onde estamos a conversar…

​​​​​​​ Sou, fui selecionada pouco tempo antes de ter ganho o meu lugar no voo espacial e foi uma coisa maravilhosa para mim ser reconhecida como exploradora. Essas duas coisas mudaram verdadeiramente a minha mente – ser membro do Clube dos Exploradores como que validou a minha carreira como geocientista, as minhas viagens, a ciência climática e tudo o resto que fazia; depois, tornar-me mesmo astronauta, que é a última forma de exploração, e ir ao espaço… Já nenhum dos meus pais me conseguiu ver a concretizar esses sonhos, mas levei comigo para o espaço a fotografia autografada do Neil Armstrong que era do meu pai. A minha vida mudou realmente no último ano!

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